sexta-feira, 10 de julho de 2015

Alguns delatores, uns detratores e uma metamorfose ambulante


O delator é, por definição, um criminoso confesso, e é por isso que deve ser condenado, e não por se prestar a entregar seus cúmplices à Justiça em troca do abrandamento da condenação que inevitavelmente lhe será imposta.” (Editorial, O Estado de S.Paulo, 01/07)





Para citar as palavras de articulistas muito gabaritados, começo com as de Elio Gaspari (Folha de S.Paulo, 01/07): “Um dos enigmas do comportamento político de Dilma Rousseff está na sua capacidade de viver numa realidade própria. É a essa característica que se deve atribuir parte do descrédito que acompanha sua administração. Diz uma coisa, faz outra e vai em frente. Recuando quase meio século na história do país para manipular os desdobramentos da Operação Lava Jato, a doutora afirmou o seguinte: "Eu não respeito delator, até porque estive presa na ditadura militar e sei o que é." Mistificando o presente, associou o comportamento de quem passa pela carceragem de Curitiba com o dos presos do DOI durante a ditadura. Seu paralelo ofende o Ministério Público, o Judiciário e o Supremo Tribunal Federal, que homologa cada um dos acordos onde estão as confissões. Nenhum preso da Lava Jato passou por qualquer constrangimento físico. Até agora, todos os atos praticados pelos investigadores respeitaram o devido processo legal. Misturar empreiteiros milionários com militantes torturados é um truque que desmerece o estado de Direito e o regime democrático de hoje. Os empreiteiros da Lava Jato buscavam o enriquecimento pessoal e o PT enfiou-se nesse mundo de pixulecos porque quis.”
(Além do que, é bom lembrar que foi a própria presidente Dilma quem sancionou a lei que instituiu a delação premiada, em 2013.)
Já o Editorial de O Estado de S.Paulo (01/07) adverte: “A presidente da República não teve o menor constrangimento de apelar para o argumento de que “se ele fez eu também posso” – uma especialidade dos petistas – ao se defender das acusações de Pessoa alegando que seu adversário no pleito do ano passado, Aécio Neves, também recebeu doações de empresas. Em resposta, o senador tucano contra-atacou: “A presidente chega ao acinte de comparar uma delação feita dentro das regras de um sistema democrático, para denunciar criminosos que assaltaram os cofres públicos, com a pressão que ela sofreu durante a ditadura para delatar seus companheiros de luta pela democracia. Não será com a velha tentativa de comparar o incomparável que a senhora presidente vai minimizar sua responsabilidade em relação a tudo o que tem vindo à tona na Operação Lava Jato”. Antes de as investigações da Lava Jato revelarem indícios claros da participação do PT na mamata, Lula e Dilma se gabavam de que os governos do PT eram responsáveis por ter garantido à Polícia Federal, muito mais do que recursos materiais indispensáveis ao aprimoramento de seu trabalho, autonomia para investigar sempre, “doa a quem doer”. Não é nenhum mérito, pois a PF não é um órgão do governo, mas uma instituição do Estado. Mas, agora que lhe doem os calos, parece que Lula, para fazer jus à reputação de “metamorfose ambulante”, mudou de ideia.”




A articulista Eliane Cantanhêde (O Estado de S.Paulo, 01/07, A4) argumenta: Um tucano falar mal do governo faz parte do jogo. Um aliado peemedebista criticar Dilma já faz parte da rotina. Mas, quando Lula abre a boca para criticar o governo Dilma, o estilo Dilma, o autoritarismo de Dilma e o fracasso de Dilma na economia, tudo muda de figura. E, quando ele faz isso justamente em Brasília e justamente quando a presidente está nos Estados Unidos, a coisa fica ainda mais feia. A sensação óbvia é que Lula desembarcou na capital da República para assumir o controle da situação e do governo, até porque ele se reuniu com o marqueteiro João Santana, com as bancadas do PT e com cabeças pensantes do PMDB, mas em nenhum momento o vice e coordenador político oficial, Michel Temer, esteve presente. Sem Dilma, sem Temer, sem Joaquim Levy, quem é o rei do pedaço? Só isso explica o PT virar as costas tão resolutamente para seu passado. Como imaginar o partido defendendo presos por corrupção? E empreiteiros presos por bilhões de motivos? Ou condenando o ministro da Justiça por “não controlar” a Polícia Federal?”



De todo modo, por intermédio de delatores ou detratores (aqueles que dizem mal, atacam ou desvalorizam), como os petistas consideram a “mídia golpista”, começa a ser conhecida uma pequena parte do “iceberg” Lava Jato.

























Edição n.º 995 - página 01

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