domingo, 23 de agosto de 2015

TRIBUNA CULTURAL LIVRE


Teatro Aplicado, bem aplicado! (Plínio Marcos)

Foi há bastante tempo que o Tom Santos, que eu não conhecia pessoalmente, me chamou para ir conversar com ele num teatro que, dizia, estava construindo na Avenida Brigadeiro Luis Antônio, ao lado da Federação Paulista de Futebol, onde em outros tempos funcionou o teatro da gloriosa rainha imortal do teatro brasileiro, Cacilda Becker. Teatro esse que os cartolas do futebol com as ideias de jerico que lhes é peculiar, acabaram por transformar em uma escola de juízes, que podia funcionar em qualquer saleta.
Mas deixa isso de lado. O que quero contar e o que pesa na balança é que fui ao tal encontro com o Tom Santos. Ao ver o lugar, fiquei pálido de espanto.



Fiquei assombrado de ver a ruína de dois casarões velhos que o Tom Santos afirmava que, embora não tendo dinheiro, ia transformar no seu teatro. Eu nunca fui de derrubar sonho bonito de ninguém. Mas também não sou de embarcar em canoa furada.
Duvidei do cara. Dei meu incentivo mas me mandei. Aqui, ói, gaivota! Eu estava achando o cara pirado da cuca. Semana passada, recebi um alô para participar de uma mesa redonda, ou feira, no Teatro Aplicado. O moço Tom Santos tinha conseguido transformar as ruinas dos casarões em teatro. Por sinal um bonito teatro, e, estava dando continuidade ao seu plano de cultura popular.
Plano esse que ele me contou quando a gente conversou nas ruínas. O Tom tinha provado seu valor no meio da batalha!



Praticamente sozinho construiu seu teatro! Lançou uma peça brasileira de muito valor.  Queria apoio para sua feira: ninguém podia negar a ele esse apoio. O excelente compositor Marcus Vinicius foi encarregado da coordenação; isso ainda dava maior seriedade ao movimento. E fomos lá.
Fomos eu, o José Ramos Tinhorão, o Walter Silva, o José Marcio Penido, e o próprio Marcus Vinicius, e falamos primeiro para uma plateia atenta, cheia de curiosidade, e vibrante, que lotou totalmente o Teatro Aplicado do Tom Santos, que modestamente ficou no meio do público. Foi uma beleza! Quem quis falou livremente. Quem quis, teve chance de contestar a posição de qualquer medalhão. As mumunhas foram rachadas com muita franqueza. E foi uma noite gloriosa de liberdade de expressão. Muitos compositores presentes e vários poetas que ainda se angustiam na ânsia de encontrar suas formas de dizer. Mas acho que o tempo que ocupamos no Teatro Aplicado, foi muito bem aplicado. Todos os presentes saíram inquietos. E certos que é muito importante saber da realidade. A feira de música popular vai prosseguir no Teatro Aplicado todas as segundas-feiras. Tenho certeza de que vai dar frutos muito bons. Parabéns  ao Tom Santos, que está fazendo isso generosamente, sem fins lucrativos! Parabéns ao ótimo compositor Marcus Vinicius pela iniciativa de organizar a feira; parabéns a moçada que piou na parada a fim de discutir e estou muito grato por ter sido convidado a participar.
O Tom Santos está querendo encontrar dia  para fazer um debate sobre teatro popular brasileiro.
O momento atual sem dúvida é de tomada de consciência da realidade. Isso será feito através de debates livres e francos como o realizado segunda feira passada no Teatro Aplicado. Ninguém deve se acanhar em ir lá e colocar seus pontos de vista com coragem, mesmo que isso se choque com o da maioria.
Debate não é encontro de pessoas que penam todas em bloco.
A verdade é que debates sobre temas nacionais e sobre o que está acontecendo motivam os jovens, e é muito bom.agora, cabe a todos nós vigiarmos para não permitirmos os modismos culturais. Nós temos que defender as manifestações espontâneas do nosso povo e também dos nossos artistas. O modismo leva muitas vezes o artista que está começandocarreira a sufocar o melhor de si, a sua criação brotada do fndo das suas entranhas ditada pelos seus mais ternos sentimentos pra se filiar à corrente em voga, nailusão de ganhar projeção pessoal. O modismo cultural é uma censura terrível tão macabra como a censura policial.
Mas para cada artista ter independência criadora é necessário que ele tome conhecimento da realidade em que vive. Aí, sim, ele pode se soltar e falar independente dos grupelos elitistas que são os que ditam as modas culturais. Um artista sempre bota na sua obra o que tem dentro de si. E se ele não tem consciência da realidade, ele só bota suas confusões.

Plínio Marcos


Edição n.º 1000 – página 05

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